Cantora Juçara Marçal e pianista Thais Nicodemo se afinam nos ruídos que (des)norteiam o álbum 'Dessemelhantes'

Juçara Marçal (à frente, à direita) e Thais Nicodemo lançam o álbum 'Dessemelhantes' com nove músicas de compositores afinados com a estética das artist...

Cantora Juçara Marçal e pianista Thais Nicodemo se afinam nos ruídos que (des)norteiam o álbum 'Dessemelhantes'
Cantora Juçara Marçal e pianista Thais Nicodemo se afinam nos ruídos que (des)norteiam o álbum 'Dessemelhantes' (Foto: Reprodução)

Juçara Marçal (à frente, à direita) e Thais Nicodemo lançam o álbum 'Dessemelhantes' com nove músicas de compositores afinados com a estética das artistas Pablo Saborido / Divulgação ♫ CRÍTICA DE ÁLBUM Título: Dessemelhantes Artista: Juçara Marçal e Thais Nicodemo Cotação: ★ ★ ★ ★ ♬ Cantora e compositora fluminense projetada há 12 anos com um dos mais impactantes álbuns da discografia brasileira do século XXI, “Encarnado” (2014), Juçara Marçal se confirma nome de ponta da cena indie paulistana com o lançamento de “Dessemelhantes”, álbum assinado pela artista com a pianista Thais Nicodemo. Cantora e instrumentista se afinam na invenção que (des)norteia o álbum gravado em estúdio e originado do show apresentado pelas artistas há anos na cidade de São Paulo (SP) com músicas de compositores que orbitam em torno do mesmo universo musical habitado por Juçara Marçal. No mercado fonográfico digital desde quinta-feira, 7 de maio, em edição da gravadora YB Music, com capa assinada por Gina Dinucci, o álbum “Dessemelhantes” se ambienta em atmosfera de vanguarda, perceptível desde a audição da primeira das nove músicas do repertório, “Isso é o que se diz, irmão” (Guilherme Held e Eduardo Climachauska, 2020). Thais Nicodemo toca um piano preparado, ou seja, um piano de som turbinado pelos objetos inseridos pela musicista – latinhas, papéis, pregadores, placas de metal – entre as cordas do instrumento. Além de cantar, Juçara Marçal pilota sampler e synth bass. O resultado é álbum que desmantela e remodela as estruturas das nove músicas de repertório selecionado sem hits. Composição de Maria Beraldo lançada no primeiro álbum da autora, “Cavala” (2018), a canção “Maria” mixa toques eruditos e vanguardistas, entre vocais e efeitos sonoros, enquanto Juçara reconta a saga autobiográfica, familiar e feminina da personagem-título. A propósito, é sintomático que Maria Beraldo esteja presente no repertório do álbum – produzido por Juçara e Thais – ao lado de Negro Leo, de quem as artistas abordam “Eu lacrei”. É que tanto Maria Beraldo quanto Negro Leo transitam no espaço de invenção habitado décadas atrás por antecessores como Arrigo Barnabé no desvario da Pauliceia dos anos 1980. Sob esse prisma, o álbum “Dessemelhantes” – cuja música-título é assinada por Juçara Marçal com Thiago França – vai soar como disco difícil, por vezes indigesto, mesmo que ofereça um respiro na delicadeza com que embala “Cavaquinho” (Rodrigo Campos, 2009), faixa em que o piano soa como caixinha de música. No todo, no entanto, são tensões, ruídos percussivos, efeitos eletrônicos e dissonâncias que pautam cantora e pianista nas abordagens de músicas como “Eu não duro” (Romulo Fróes e Eduardo Climachauska, 2019) e “Merecedores” (Kauê Batista, 2022). “Vai querer, querer, querer, querer / Zombar de mim”, canta Juçara Marçal, em verso do samba torto “É mesmo assim” (Kiko Dinucci, Rodrigo Campos e Romulo Fróes, 2011), como se provocasse o ouvinte. No fim, a ironia mordaz e resignada de “A gente se fode bem pra caramba” (Kiko Dinucci, 2017) sublinha o destino de álbum desafiador como “Dessemelhantes” em um mercado que repudia tudo que não for fácil e/ou repetitivo. “Dessemelhantes” é álbum feito para desnortear, para (des)apontar caminhos. Capa do álbum 'Dessemelhantes', de Juçara Marçal e Thais Nicodemo Arte de Gina Dinucci

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